A inauguração do Centro de Acolhimento Terapêutico (CAT), no último dia 25 de maio, em Barbacena, marca um momento histórico para a saúde mental no Brasil. A unidade passa a acolher os 14 últimos moradores que permaneciam no antigo Hospital Colônia de Barbacena, encerrado definitivamente na mesma data após mais de um século de funcionamento.
A gestão do CAT será realizada em parceria entre o município e o Consórcio ICISMEP, sendo o INTS — Instituto Nacional de Tecnologia e Saúde responsável pela operacionalização dos atendimentos e das ações desenvolvidas na unidade.
O novo serviço nasce em um contexto simbólico: maio é considerado o Mês da Luta Antimanicomial, movimento que tem como marco nacional o dia 18 de maio. A transferência dos moradores consolida, na prática, a substituição do modelo de internação e isolamento por uma proposta de cuidado em liberdade, acolhimento, vínculo e garantia de direitos.
Um marco histórico para a saúde mental
Criado em 1903, o Hospital Colônia de Barbacena tornou-se, ao longo das décadas, um dos maiores símbolos de exclusão, negligência e violações de direitos humanos do país. A unidade recebeu milhares de pessoas, muitas vezes sem diagnóstico médico adequado, em um modelo marcado pela institucionalização compulsória e pelo afastamento da convivência social.
Com o fechamento definitivo das atividades, os últimos moradores — todos idosos, alguns com comorbidades e necessidade de cuidados permanentes — passam a viver em uma casa localizada na área urbana, em um ambiente planejado para oferecer assistência contínua, mas com rotina mais próxima de um lar.
A Coordenadora de Projetos e gestora da Casa, Kênya Costa, destaca que a proposta do CAT é romper com a lógica hospitalar e construir, diariamente, uma nova forma de cuidado. “Esse fechamento da porta do manicômio é a abertura das portas da liberdade. O nosso grande desafio é mudar a lógica de uma rotina hospitalar para uma casa. Eles não estão mais em um hospital, eles estão em casa. Então, todo cuidado, toda atenção e todo gesto precisam ser pensados a partir dessa perspectiva de acolhimento, respeito e reparação”, afirma.
Centro terá equipe multidisciplinar com 28 colaboradores
O Centro de Acolhimento Terapêutico contará com 28 colaboradores, formando uma equipe multidisciplinar composta por profissionais de enfermagem, fisioterapia, nutrição, técnicos de enfermagem, cuidadores e auxiliares de serviços gerais. A estrutura foi organizada para atender moradores que necessitam de acompanhamento 24 horas, com cuidado integral, humanizado e individualizado.
Segundo Kênya Costa, um dos principais objetivos neste primeiro momento é transformar a rotina dos moradores, respeitando seus desejos, limites e necessidades. “A pergunta que a equipe precisa fazer todos os dias é: ‘eu faria isso na minha casa?’. Se a pessoa não quer tomar banho pela manhã, em um dia frio de Barbacena, por que insistir nessa lógica? Podemos adaptar para o meio do dia, para o final da tarde, para quando fizer mais sentido. Isso é humanizar o atendimento. É reconhecer que estamos falando de moradores, de pessoas que passaram por uma história muito dura e que agora precisam ser acolhidas de outra forma”, explica.
A gestora também ressalta que o trabalho envolve todos os detalhes da rotina, desde os cuidados em saúde até a ambiência, a alimentação, a lavanderia, a limpeza, a medicação e a construção de um espaço que seja, de fato, uma casa. “Eu me sinto parte da história. É um grande desafio, mas também é uma oportunidade de buscar alguma forma de reparação para esses moradores. A nossa dívida com eles é incalculável”, completa Kênya.
Da memória da dor à construção de um novo futuro
O antigo Hospital Colônia permanece como um dos capítulos mais sensíveis da história da saúde mental brasileira. No mesmo complexo, o Museu da Loucura seguirá em funcionamento, preservando documentos, fotografias, objetos e registros que ajudam a contar a trajetória das pessoas que passaram pela instituição e a manter viva a reflexão sobre os impactos do modelo manicomial.
Com a inauguração do CAT, Barbacena passa a simbolizar também um novo caminho: o da reparação possível, do cuidado com dignidade e da construção de políticas públicas que reconhecem a liberdade como parte fundamental do tratamento. “Esse momento transforma profundamente o percurso da Rede de Atenção Psicossocial, porque reafirma que o tratamento em saúde mental deve acontecer com vínculo, autonomia, convivência social e garantia de direitos. Fazer parte dessa mudança é motivo de muito orgulho e também de muita responsabilidade, porque estamos falando de vidas, de trajetórias e da construção de um futuro mais humano para a saúde mental no Brasil”, conclui Ana Clara.
Foto: Reprodução Instituto Nacional de Tecnologia e Saúde/Divulgação
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