Durante muito tempo, quando uma pessoa perguntava para outra o que ela estava fazendo naquele momento e a resposta era nada, a realidade era essa mesma – ela estava fazendo nada.
Mas hoje em dia, em plena era tecnológica, o fazer nada mudou de forma e de nome. Para muitos, o fazer nada virou uma atividade barulhenta e nenhuma surpresa nisso, porque no Brasil 35% das pessoas dizem que descansar é pegar o celular.
Entre os mais jovens, esse número chega a 53%, de acordo com pesquisa recente. O índice elevado mostra algo muito maior do que um simples hábito, revelando uma geração que desaprendeu a parar.
Quando o fazer nada acontece na tela, ele vem acompanhado de um trio conhecido: tédio, culpa e ansiedade. Quatro em cada dez pessoas admitem sentir algum desses sentimentos quando estão apenas rolando o feed das redes sociais.
Já quem associa o ócio a ficar deitado, longe do celular, relata exatamente o oposto, ou seja, o relaxamento. O offine acalma, enquanto o online agita, mas essa diferença não trata só o cansaço.
Ela fala sobre o tipo de relação que estamos construindo com o tempo e com nós mesmos. As pausas, que antes representavam um respiro, hoje parecem vazias e precisam ser preenchidas.
E essas novas rotinas fazem o silêncio desaparecer, deixando muita gente cansada, mesmo quando há sobra de tempo. O celular, que prometia liberdade, ocupa todo o espaço entre uma tarefa e outra, deixando as pessoas mais cansadas, mentalmente falando.
Psicóloga há 27 anos, atuando tanto na rede pública de saúde como na iniciativa privada, a profissional Quésia Diniz tem percebido claramente os efeitos do excesso de tecnologia na vida das pessoas.
É como se o celular fosse uma extensão do braço, não se pode abrir mão dele um só instante, mesmo durante aqueles momentos de não fazer nada:
Quésia ainda acrescenta a informação de que o vício das telas não traz prejuízos apenas para o cérebro. As relações presenciais têm esfriado, com pessoas vivendo sob o mesmo teto, mas totalmente indiferentes ao resto da família:
Se você também está ligado o tempo todo, aprenda: o fazer nada é o que permite que a cabeça respire e o corpo desacelere. É nesse tempo, aparentemente inútil, que a gente se reencontra.
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